O Sistema especial de encarceramento, utilizado na Espanha, denominado “ Fichero de Internos de Especial Seguimiento “ – FIES, se destinava à manutenção de prisioneiros em condições de isolamento extremo. Era para ser uma espécie de Banco de Dados para registrar e monitorar presos que segundo o Sistema, ofereceria perigo maior à sociedade.
O FIES era um sistema que violava brutalmente os Direitos Humanos e desrespeitava a Constituição espanhola, pudemos observar isso ao assistir o filme. Este modelo tinha como principal critério desumanizar na mesma proporção que houvesse questionamento contra isso por parte da população carcerária, o que isto quer dizer, havia restrições duras para as visitas de convivência, para fazer ligações telefônicas, era proibido leitura de qualquer livro, jornal ou revista, entre outras coisas e paralelo a isso um quadro de funcionários despreparados.
Por conta disso muitos presidiários não suportando o isolamento, as humilhações e os maus-tratos acabavam se matando ou se rebelavam. Também é fato que esse modelo era muito próprio da Espanha, outros Estados-membros da União Européia não o adotaram, optaram talvez pressionados por ativistas dos direitos Humanos, por uma maior atenção a reintegração dos presos na sociedade.
Este é o pano de fundo onde se desenrola toda a história do filme Cela 211, que é muito claro, vemos de um lado Juan, carcereiro que representa o Sistema e Malamadre, presidiário que lidera uma rebelião pelo fim do modelo FIES, sem aprofundar as histórias individuais, pudemos ver que de repente Juan percebe que estando de um único lado, pelas circunstâncias ele assume temporariamente e depois definitivamente o Grupo, se tornou respeitado pelo comportamento assertivo e foi aceito por estar “no mesmo barco”, abandonado à própria sorte e sem direito algum, como qualquer um deles, que culminou com um final pra mim surpreendente.
Provavelmente Juan pôde perceber nos seus últimos momentos de vida respeito e princípios vindos de Malamadre tido como criminoso periculoso, que naquele episódio lutava por direitos e por justiça e que o Estado responsável pela sua segurança e de sua família, contribuiu com a falta de preparo de seus representantes para aquele desfecho da história. Ambos foram vítimas do Sistema.
Não dá para fazer uma crítica sem lembrar que o nosso modelo não é dos melhores. Mesmo com o advento da Lei de Execuções Penais, na década de 80, a situação dos presídios quase não avançou. Direitos humanos são desrespeitados, problemas como degradação, superlotação e corrupção, acabam contribuindo na maioria das vezes para piorar esse quadro.
Quanto ao filme Cela 211, nos faz voltar os olhos para o Outro e emergir num ambiente que preferimos fugir, gosto muito de filmes que nos faça pensar, por isso gosto de casos verídicos. Recomendo.
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